Para combater o bullying de forma efetiva, a escola precisa ter coragem de olhar para si mesma

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Professora dos anos finais do Ensino Fundamental conta como aprendeu a lidar e debater casos de agressão depois de uma experiência complicada na instituição em que trabalhava


12 de Abril 2017 - 16:00




“O bullying é um problema muito presente nas escolas brasileiras e do mundo afora. Lembro- me, por exemplo, que quando cheguei a uma nova escola, fiquei muito assustada com a alta incidência de agressões entre os alunos dos anos finais. Por isso, decidi fazer uma roda de conversa com a turma e mencionei a importância de a vítima buscar a ajuda de um adulto. Nessa hora, uma menina contou que, no dia anterior, havia pedido a ajuda de um professor, porque, durante as aulas, os colegas a xingavam de 'derrapada de caminhão' em alusão ao fato de ela ser negra. A reação do docente foi dar risadas, grandes gargalhadas na frente da turma. Imagine a profunda tristeza com que essa criança me contou isso.
Com o tempo, fui percebendo que aquilo era frequente entre os professores e que até o diretor da escola era hostil e grosseiro com os alunos. Fazia piadas com os estudantes que eram homossexuais e tripudiava daqueles que eram indisciplinados, gritando a plenos pulmões que 'na escola dele, bandido não ficava'. Ou seja, as violências produzidas entre os alunos, refletiam como os adultos responsáveis os tratavam.
Assim, conclui que trabalhar o tema violação de direitos na escola significa desenvolver um trabalho com todos os agentes: professores, porteiros, merendeiros, diretores e coordenadores. Todos precisam se perceber como responsáveis pela integridade das crianças, sabendo fazer as intervenções quando necessário e nunca se omitindo ou sendo cúmplices. 
Assim, realizei um trabalho sobre o bullying. Os alunos estudaram a legislação que trata o assunto e foram convidados a produzir curta metragens que seriam expostos em uma mostra na escola para que todos os estudantes mais novos assistissem e votassem no que mais gostaram, à semelhança de um festival. 
Quando os vídeos estavam prontos, meus colegas não queriam liberar os alunos porque não consideraram esse tema relevante. No fim desse projeto, a minha supervisora pedagógica e eu começamos a sofrer assédio moral por esse mesmo diretor que destratava os estudantes. Me afastei da instituição, sendo locada em outra unidade.
Com essa experiência, aprendi que é necessário tratar do que é bullying, mas não de maneira genérica. É preciso nomear e diferenciar as agressões às quais as crianças são submetidas para construir a intervenção adequada a cada caso. Tratar de homofobia é diferente de tratar de racismo, que é diferente de tratar brigas de gangues e cyberbullying. É preciso que a escola se debruce sobre as suas especificidades para atuar de maneira mais efetiva.
Antes de abordar bullying com os alunos, a escola deve refletir sobre as relações que os adultos têm com crianças e adolescentes no espaço escolar. Deve haver debate em sala de aula, engajamento dos alunos e mobilização das famílias. Mas de nada adiantará se não for estabelecido um ambiente seguro, acolhedor e equilibrado na escola. 
Outra coisa que eu aprendi durante esse trabalho foi a importância de legitimar os alunos como formadores de opinião e estimular os estudantes mais velhos da escola a assumirem o papel de liderança positiva. No lugar de os profissionais da instituição serem os autores das iniciativas, funciona muito melhor dar voz aos alunos e permitir que eles mesmos reflitam sobre os problemas e construam intervenções. Além de os empoderar, a escola mostra que acredita neles e os faz assumir outras posturas à medida que recebem a responsabilidade de conduzir o debate. 
Não desisti de lutar por esse trabalho e continuarei trabalhando para promover uma escola acolhedora e protetora onde eu estiver."
Depoimento anônimo dado por uma professora dos anos finais do Ensino Fundamental a repórter Anna Rachel Ferreira

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