Em três oportunidades eu pude escolher. Em todas elas, escolhi ser professora

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Para Karin Elizabeth Gröner, que começou a lecionar com 19 anos, o magistério é um trabalho muito sério e não deveria ser a última opção profissional de ninguém

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Karin Elizabeth Gröner 
Karin Gröner

18 de Abril 2017 - 10:00



Karin Gröner, 39 anos, tem 18 anos de docência. No início, sua família não queria que ela seguisse a carreira pela desvalorização profissional, mas Karin não desistiu. Crédito: Raoni Maddalena

“Costumo dizer que a vida é feita de reviravoltas, e a minha não é exceção. Comecei a dar aulas com 19 anos, mesmo antes de cursar Pedagogia. A primeira turma que peguei foi uma 4ª série (equivalente ao atual 5º ano). Fazia pouco tempo que a progressão continuada tinha começado, ou seja, na sala tinham muitos repetentes, alguns alunos de 16 anos. Era a pior turma. Eu chorava todo dia, pois era difícil manter a disciplina e lidar com as defasagens ao mesmo tempo... mas, no final do ano, eu vi que tinha dado conta, que a dedicação tinha valido.

Minha família é lotada de professores: minha mãe, meus tios do lado materno, minha avó paterna. Quis ser professora desde criança. Do lado da minha casa tinha uma escola abandonada e eu brincava de dar aula para os amigos. Mas, na adolescência, enquanto eu ajudava a rodar folhas no mimeógrafo e a corrigir provas, ela sempre me falava: “não vai ser professora, se ganha muito pouco”. A profissão já não remunerava tão bem quanto na época da minha avó, que tinha padrão de vida alto.

Mesmo assim, entrei no magistério no Ensino Médio, com 14 anos, no colégio Beatíssima Virgem Maria, em São Paulo. Aí comecei a namorar e engravidei com 15 anos. Como eu estudava em uma escola de freiras, não pude continuar. Parei de estudar por dois anos. Depois, fui para a escola técnica e tinha muitas opções de cursos, mas eu quis magistério. Durante essa época, fiz estágio na sala da minha mãe. Nós sentávamos juntas para preparar a aula. Acabei pegando muito do jeito dela, que hoje é minha maior incentivadora. Me formei em 1997 e no ano seguinte resolvi morar no interior paulista, em Nova Europa, perto de Araraquara.



Só comecei a faculdade de Pedagogia em 2001, quando eu já era efetiva na prefeitura. Poderia ter feito outro curso, mas sentia que estava na carreira certa, por isso, digo que em três ocasiões escolhi ser professora. Não me vejo em outra profissão, gosto de dar aula, do contato com os alunos. Como é uma cidade do interior, dá para acompanhar bem o cada um se tornou. Minha maior alegria é encontrá-los depois e saber que estão na faculdade, algumas até em Pedagogia, para serem professoras como eu. Quando os ex-alunos elogiam minhas aulas é o melhor presente. Hoje, dou aula para os filhos e sobrinhos deles. Sinto que, na experiência de todos os anos, cada estudante deixa algo em você. Como professora fui mudando, melhorando, construindo, passo por renovações constantes.  

Vários sistemas de ensino já foram introduzidos e mudados na prefeitura, mas eu não sou resistente, tento fazer o meu melhor. Depende muito do estudo do professor, é ele quem torna um material didático bom. O grande desafio hoje é se manter informado e continuar estudando para aprender coisas novas e mudar. A escola em que eu me encontrei é como se fosse a minha casa, é um ambiente formador em uma rede que investe muito em formação continuada. Tanto que eu sou a 4ª educadora dessa rede a ganhar o Prêmio Educador Nota 10. Justamente a valorização imensa dada pela premiação é o que mais se sente como uma lacuna nessa profissão. Muitos reclamam da falta de condições – e é verdade – mas a gente consegue fazer o melhor com o que tem. Acho a desvalorização financeira pior, pois já precisei dar de 10 a 12 aulas por dia, em dois períodos. E isso é cansativo. Mesmo assim, não penso em fazer outra coisa.

O magistério é muito sério e não pode ser a última opção porque ‘é mais fácil’. Não é. Você precisa entender de desenvolvimento, de aprendizagem, teorias, psicologia... tudo para saber ensinar. Minha preocupação é não deixar no aluno nenhuma experiência negativa. Após o Prêmio, fui convidada para ser coordenadora nessa rede. A minha escola, que era esquecida na diretoria de ensino, agora é destaque e eu já palestrei em seminários de boas práticas. Cada telefonema da selecionadora valia para mim mais do que muito curso de formação. Ganhar o Prêmio é um sonho para todo professor, mas para mim teve um sabor especial, por enfrentar tudo o que enfrentei e nunca desistir da minha vocação.”

Karin Elizabeth Gröner, professora de Língua Portuguesa na EE Professor Fernando Brasil, em Curupá, distrito de Tabatinga, SP, e Educadora Nota 10 de 2016.
Depoimento a Maggi Krause

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