Bullying, suicídio e omissão na escola

16:11 |



A série “13 reasons why” (“Os 13 porquês”) aborda os motivos que fizeram uma estudante tirar a própria vida e o que poderia ter sido feito para salvá-la


por:
Nairim Bernardo 
Nairim Bernardo
Um dia desses, conversando sobre situações traumáticas que vivemos na época de escola com algumas amigas, elas me contaram que já sofreram ameaças de colegas, foram expostas nas redes sociais, xingadas e humilhadas publicamente por diversos motivos. Discutimos que, em situações como essas, é bem difícil ter coragem para contar para um adulto o que está acontecendo. Quando elas finalmente conseguiram, me disseram que nem sempre encontraram apoio nos professores e gestores. Alguns chegaram a dizer que a culpa pelo ocorrido era delas ou, ao saber da situação, só tomaram atitudes pontuais, como dispersar a multidão que se juntou no recreio para atacá-las verbalmente. Isso sem falar de momentos em que o praticante do bullying era o próprio professor.
Esse papo começou por causa de uma nova série que está causando interesse em jovens de todo o mundo chamada 13 reasons why (Os 13 porquês, em português), produzida pela Netflix. A série é baseada em um livro homônimo. O tema é pesado: o suicídio de uma adolescente. Durante os episódios, tomamos conhecimento dos motivos que fizeram a estudante secundarista Hannah Baker tirar a própria vida. E não, não foi para chamar a atenção. A jovem sofria bullying, buscou, mas não recebeu ajuda da escola.
A história começa com a escola de luto pela morte da aluna. Ao voltar para casa, Clay, que era não só amigo, mas também apaixonado por ela, encontra em sua porta uma caixa com treze fitas. Elas foram feitas por Hannah para relatar os acontecimentos que a fizeram tomar a decisão de “sumir para sempre”. Descobrimos, então, que ela sofreu com diversas situações que muitas mulheres estão suscetíveis: teve uma foto espalhada pelas redes sociais, foi ofendida por isso e viu praticamente todos os colegas se afastando e a julgando. Além disso, presenciou o estupro de uma amiga e também foi abusada sexualmente.

Muitos estudantes brasileiros estão se identificando com os personagens da série. Não à toa, o Centro de Valorização da Vida (CVV), associação brasileira que fornece trabalha na prevenção ao suicídio e oferece apoio a quem precisa, passou a receber o dobro de contatos desde que a série estreou e lançou a campanha #NaoSejaUmPorque, em referência ao título.
Os colegas
Ao contrário de outras séries e filmes adolescentes, Os 13 porquês não pretende definir vilões nem mocinhos. Os personagens, assim como na vida real, são complexos e nem sempre entendem o quanto uma frase, um gesto ou a falta dele podem realmente significar. Os garotos que riem da foto de Hannah consideram aquilo uma piada, quem se afasta realmente a considera uma pessoa de quem é melhor não estar próximo, o rapaz que a estupra não considera que aquele foi um ato forçado, um crime.
ACESSE: “Guia do professor - programa de prevenção ao bullying e cyberbullying” lançado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) nesta sexta-feira (7/4), Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola
Cada cena que eu assisti da série despertava em mim alguns pensamentos e memórias. Primeiro, eu não acreditava que aquilo poderia acontecer na vida real ou achava que, no lugar da Hannah, eu faria diferente. Depois, eu comecei a me lembrar de uma situação parecida que aconteceu na minha escola. No final, já tinha certeza que já vi ou já passei por isso e, na hora, não consegui fazer nada também.
Os professores
A maioria das situações da série acontecem ou tem repercussão no ambiente escolar. Os educadores tratam muitas situações como normais e não ajudam a jovem como poderiam. O diretor também se omite perante os casos de bullying que presencia e defende que a escola não tem relação alguma com o que acontece. As denúncias da menina só passam a ser vistas quando a mãe da jovem entra em um dos banheiros, vê diversos xingamentos contra sua filha escritos na parede e decide processar a escola.
No Brasil, o bullying e a violência na comunidade escolar atinge, afeta e mata jovens e crianças. Já escrevemos sobre o assunto aqui, quando noticiamos que agressões já atingiram 68% dos jovens da comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) em escolas. Em outro momento, também ficamos sabendo de meninas tendo sua intimidade exposta na internet, quando adolescentes divulgaram o “top 10 mais vadias”, fazendo o ranking as meninas consideradas “vadias” na escola. Características físicas e comportamentos também podem servir como gancho para que agressões físicas e verbais sejam praticadas. Quem nunca presenciou um aluno sendo chamado de “gordo”, “baleia”, “magricela”, “macaco”, “machona”, “bixa”?
A série mostra de forma explícita o que aconteceu com um grupo de adolescentes e pretende chocar ao revelar que acontecimentos que parecem simples e até mesmo engraçados para alguns podem culminar na morte de uma pessoa. O objetivo é justamente esse, mostrar o suicídio da forma mais natural possível, sem romantizar o fato de morrer jovem e bela.

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