Professor concorre a prêmio por projeto ambiental no Amazonas

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    • Segunda-feira, 16 de janeiro de 2017, 10h58
    O professor Menezes com os alunos: “O projeto inclui o desenvolvimento de filtros destinados ao tratamento da água, de forma a torná-la própria para o consumo e já é realidade (foto: arquivo pessoal)Na zona rural de Parintins, Amazonas, o professor Valter Menezes desenvolve o projeto Água Limpa para os Curumins do Tracajá, que atende à comunidade ribeirinha. Menezes já conquistou o prêmio Educador Nota 10 pelo trabalho e está entre os 50 finalistas do Global Teacher Prize, considerado o Nobel da educação.
    Nascido em uma família de 11 irmãos, com pai pescador e mãe agricultora, Menezes, ainda na infância, deixou a família na zona rural de Parintins, município de 112,7 mil habitantes, em busca de oportunidade de estudo. Os pais não eram alfabetizados e viviam de forma modesta, mas sempre deram valor à educação.
    “Meu pai dizia que a única herança que poderia deixar era a educação. Quem não quisesse seguir uma profissão, teria que seguir a dele, de pescador”, diz o professor. “O que eu via, o sofrimento dele ao chegar da pescaria, do seu trabalho, me comovia.”
    Menezes lembra que aos sete anos de idade foi estudar longe da comunidade rural. “Lá não tinha o ensino fundamental; a partir dali, então, comecei a buscar o ideal para mim: eu queria ser professor por achar, e continuo achando, que a profissão de educador é uma das mais belas que existe.”
    Assim começou a trajetória do professor, que leciona há 22 anos na Escola Municipal Luiz Gonzaga, na comunidade do Santo Antônio do Rio Tracajá, zona rural de Parintins. O município fica a 370 quilômetros de Manaus. Menezes foi diretor da escola por nove anos e em outros três atuou como coordenador pedagógico de dez outras. Hoje, dá aulas de ciências a 120 alunos dos quatro últimos anos do ensino fundamental. O trabalho vai além da escola e beneficia a comunidade ribeirinha.
    “Trabalhamos um projeto voltado para o meio ambiente e a questão da saúde”, afirma. Como professor de ciências, ele procurou dar resposta ao questionamento de um aluno, em uma aula sobre meio ambiente e água. O estudante queria saber porque as crianças e demais moradores da região sofriam com diarreia. “A partir desse questionamento, buscamos alternativa. Adotamos a prática pedagógica do espaço não formal para trabalhar a questão da água, que é um problema mundial.”
    Prêmio — O projeto que leva água limpa às famílias ribeirinhas, que não tinham acesso às redes de esgoto e de água potável, começou em 2014. No ano passado, Menezes foi reconhecido nacionalmente pelo empenho e ganhou o prêmio Educador Nota 10, oferecido por uma parceria de fundações voltadas para a área educacional. Em dezembro último, ficou entre os 50 finalistas do Global Teacher Prize, considerado o Nobel da educação.
    O trabalho, coordenado pelo professor, com o apoio de estudantes do nono ano, consiste na construção de fossas biológicas para evitar o despejo de dejetos no rio. O projeto inclui o desenvolvimento de filtros destinados ao tratamento da água, de forma a torná-la própria para o consumo. “É um projeto, não um experimento, e já é realidade; o povo está vivendo isso aqui”, diz Menezes. “São 70 famílias beneficiadas com o projeto das fossas biológicas, abertas para impedir a contaminação do lençol freático da nossa comunidade, de onde o povo tira a água para o consumo.”
    De acordo com o professor, 180 famílias que não contam com água encanada receberam o filtro bioativo. “Todas as dez comunidades da região do polo Tracajá foram beneficiadas com o projeto, e os alunos, de modo geral, estiveram envolvidos, assim como os professores. Foi um projeto inovador, e todos participaram.”
    Construção — Segundo Menezes, as fossas biológicas podem ser usadas por até 30 ou 50 anos. Cavadas na terra, eles são revestidas de tijolos e reboco para evitar a infiltração no lençol freático. “Fazemos um corredor, que chamamos de pirâmide; essa pirâmide recebe todo o dejeto humano”, explica. “Esse corredor é coberto com bueiros; em seguida, são jogadas três camadas de cacos de pedra, e o corredor é preenchido com seixo ou brita acima da pirâmide e, por fim, com terra queimada e esterco de animal. No local, é plantado um pé de bananeira.”
    A fossa, vista de cima, parece um canteiro. A raiz da bananeira absorve o líquido — podem ser usadas outras plantas, como a taioba ou tajá.
    Além das fossas, a comunidade usa os filtros bioativos, preparados em recipientes de plástico ou vidro. Para funcionar, basta inserir camadas de brita ou seixo, areia grossa e fina. Ao passar pelas camadas, a água sai filtrada.
    Bem-estar — Segundo o professor, com o projeto, os alunos se tornaram cidadãos mais conscientes e capazes de resolver problemas, especialmente na área ambiental. Mas ele garante que o maior impacto é o bem-estar da comunidade. “Não vemos mais surtos de diarreia, as crianças mostram aparência de uma vida mais tranquila e de bem-estar social, nossa comunidade não sente mais odor de banheiro nas ruas”, destaca Menezes. Hoje, nosso povo é mais consciente na questão da união para lutar pelo que é melhor para a comunidade.”
    Em março, o professor Valter Menezes vai a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para a cerimônia de premiação do Global Teacher Prize.
    Assessoria de Comunicação Social

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