Crise empurra alunos para a rede estadual

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Foram 32.350 novas matrículas de jovens saídos de colégios privados, um aumento de 18,2%

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Ana Carolina Machado era estudante de uma escola particular e ha dois anos mudou para a Escola Estadual Chico Anysio, no Andaraí - Bárbara Lopes / O Globo



RIO - Mariana Azevedo tinha 15 anos quando deixou o colégio particular para estudar na Escola Estadual Chico Anysio, no Andaraí. Filha de uma costureira e um bancário, ela teve que se adaptar à nova realidade da família, que ficou com o orçamento apertado por causa dos gastos com a faculdade de medicina da irmã mais velha.



— Foi bom para eu ter noção do que é a educação que todo mundo recebe. Na escola particular, eu tinha tudo de mão beijada — conta Mariana, que está na Chico Anysio desde 2015.

 


Este ano, 32.350 jovens vão passar pela mesma mudança: eles deixarão escolas privadas para estudar na rede estadual, que sofre as consequência de uma grave crise financeira. De acordo com a Secretaria de Educação, o número representa um aumento de 18,2% em relação ao ano passado, quando foram 27.357 matrículas de egressos da rede particular. Esse movimento vem aumentando a cada ano. Em 2011, foram 10.678. No ano seguinte,12.762. Houve queda em 2013, quando o estado recebeu 9.645 jovens de escolas particulares. Mas, em 2014, o número deu um salto para 18.349. Em 2015, nova alta: 21.753 inscritos.




O aumento acontece num momento em que as escolas estaduais enfrentam problemas de infraestrutura e até a falta de itens da merenda. O ano letivo de 2016 ainda foi prejudicado por greves e ocupações, em que alunos tomaram mais de 50 colégios e, em alguns casos, entraram em confronto com policiais.



QUALIDADE ATRAI MAIS ALUNOS, DIZ SECRETÁRIO
As escolas estaduais receberam 240,7 mil novas matrículas para este ano, um aumento de 8,4% em relação a 2016. O número ainda pode sofrer pequenas alterações, pois os alunos tinham até segunda-feira à noite para confirmar a inscrição. A maior parte deles vem da rede municipal. Há ainda uma parcela — 13.524 — que voltou a se inscrever na rede após passar um período fora da escola. No ano passado, foram apenas 3.852 retornos. A grande maioria das escolas estaduais no Rio é de ensino médio.

Para o secretário estadual de Educação, Wagner Victer, a transferência de alunos da rede privada é um dos efeitos da situação do país, que tem afetado o orçamento de muitas famílias:
— Em função da crise econômica, estudantes do setor privado começam a migrar. Eles também são atraídos pela qualidade do ensino no estado, que melhorou. No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), houve uma redução da diferença entre escolas privadas e públicas — disse Victer. — E há um número significativo de novos alunos que estavam longe dos estudos. Isso mostra que muitas pessoas que estavam trabalhando chegaram à conclusão de que, com o desemprego em alta, têm de se qualificar para voltar ao mercado.
Ele afirmou que o aumento da demanda por vagas nas salas de aula da rede estadual não vai agravar os problemas enfrentados hoje pelas escolas:
— Isso não me preocupa, porque eu sabia que esse aumento viria e estava me planejando nesse sentido. Estamos fazendo um trabalho de adequação da rede.
Apesar do argumento do secretário, a professora Cynthia Paes de Carvalho, do Departamento de Educação da PUC, especialista em sociologia política e gestão da educação, prevê um ano ainda mais difícil para o governo, com o aumento do número de matrículas.
— Acho que vai congestionar ainda mais a rede estadual. Obviamente, essa migração tem a ver com a crise — observou. — Hoje em dia, a rede privada é bastante cara, especialmente a do ensino médio.
Alunos e professores da rede estadual contam que já estão percebendo as consequências da falta de recursos do estado. De acordo com a professora Beatriz Lugão, integrante do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe), a falta de porteiros e vigilantes nas escolas está prejudicando a rotina dos estudantes. Ela disse ainda que o grande número de aposentadorias de docentes poderá desfalcar algumas turmas. A rede tem hoje 67,2 mil professores, 240 mil novos alunos e 500 mil matrículas renovadas.
— Já chegamos a ter quatro mil professores saindo por ano da rede. Muita gente quer se aposentar antes da reforma da Previdência. Vamos ter milhares de aposentadorias sem reposição. O último concurso foi em 2014 — disse.
ESTUDANTES TIVERAM ANEMIA
Colega de Mariana no Colégio Chico Anysio, Ana Carolina Machado, de 17 anos, também deixou a escola particular em 2015, depois que seus pais, uma secretária e um comerciante, reorganizaram as finanças da família. Ela contou que faltaram funcionários para preparar a merenda e, por isso, alguns alunos chegaram a ter anemia, devido ao cardápio insuficiente:
— A alimentação, nos primeiros meses do ano, estava muito fraca. Só serviam ovo.
Apesar do problema, Ana elogiou o projeto pedagógico do colégio, que é bem diferente do da rede privada tradicional:
— Por ser em horário integral, conversamos com nossos orientadores e tentamos achar a melhor solução para a vida acadêmica e a nossa inserção no mercado de trabalho.


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